terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Visitante do Barulho


O silêncio só existe em contraste com o barulho. Se não há barulho a contrastar, é ele próprio barulhento. E então apetece o ruído para ele ser menos ruidoso

Vergilio Ferreira








Fecho os olhos e viajo até ao século passado, quando eu era um pedaço de mim, uma forma esguia que os anos foram moldando e continuam a moldar até alcançar o produto final, provavelmente deteriorado e longe da perfeição, mas o eu completo que me foi permitido encarnar.

Tinha dezasseis anos feitos de fresco há dois dias. Estava em Piccadilly Circus e lá estava ele.
Tocava e cantava o Yellow Submarine e creio que poucos havia que não acompanhassem aquela energia em lalala, humhumhum ou com letra e música até.

Era bizarro e estrondoso. Tocava uma panóplia de instrumentos ao mesmo tempo, mais ruído do que música, à qual somente o vocalizo conferia o reconhecimento necessário.

É uma recordação grata. 

Na ultima semana tem morado na minha cabeça, apenas ele , o ruidoso, o estrondoso, o barulhento. Não para de ribombar a sua desconjuntada filarmónica,  acrescentando passos e batida stomp, que volteia , sapateia e faz guinchar um sonoro turbulento nas minhas trompas auriculares. 
Latejo. É o bombo traseiro incessante na sua crepitosa batida ...
... " o trompete protesta, ratatatata, ratatatata tarara,  e quanto aos timbales , só têm dois sons : sol dó, dó sol, boom boom boom boom boom" ... dezasseis anos, quinze, talvez....

O livro que seguro não se segura e deixa as letras acompanhar o ritmo desconcertado.
O músico, multifacetado como é, está seguramente a tocar picareta.
Fecho os olhos cansados desta dor de cabeça residente e penso no Brexit. 





                       

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Olhos velhos, novo olhar.

"É preciso ver o que não foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na Primavera o que se vira no Verão, ver de dia o que se viu de noite, com Sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aqui não estava."
José Saramago






O vento é bom bailador, 
Baila, baila e assobia. 
Baila, baila e rodopia 
E tudo baila em redor. 
E diz às flores, bailando: 
- Bailai comigo, bailai! 
E elas, curvadas, arfando, 
Começam, débeis, bailando. 
E suas folhas, tombando, 
Uma se esfolha, outra cai. 
E o vento as deixa, abalando, 
- E lá vai!... 

Afonso Lopes Vieira






Os meus olhos já não vêm como viam.

Voei num embalo de vento agreste, à procura do que o meu olhar guardou há tantos anos.
E o vento levou-me onde quis ir. Contou-me sussurrando a mesma história secular que nem a erosão do tempo deixou esmorecer no meu espírito.
Segurei um pé de vento e voei.
Pousei onde tinha estado na aurora dos meus dias, quando tudo era claro ,  alegre e  singelo.
Regressei no entardecer, no momento em que as cores se esbatem no azul plúmbeo de um céu de outono, já gastas pelo passar dos minutos e das horas.







O manancial da palavra escrita que acumulei durante tanto tempo abriu os tomos do conhecimento  e as letras libertaram-se e formaram palavras que giraram e voltearam e me levaram  por pedras e frestas, ao pormenor que desconhecia. 

E vi, vi de novo como se fosse a primeira vez que via.







 Aguardei feliz o pé de vento que me faria regressar, mas demorou.
Deu-me tempo para me perder no tempo e mergulhar no novo olhar.
Sei que no ocaso, tudo será diferente, que os meus olhos não verão como vêm agora.














                   

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Anywhere the Wind Blows ?

 


 ...How many years can a mountain exist
Before it's washed to the sea?
Yes, and how many years can some people exist
Before they're allowed to be free?
Yes, and how many times can a man turn his head
And pretend that he just doesn't see?
The answer, my friend, is blowin' in the wind
The answer is blowin' in the wind