quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Ditos e Feitos

      "Fim - o que resta é sempre o princípio feliz de alguma coisa."

Agustina Bessa Luis




     "Uma vida só tem história do princípio para o fim, se a tiver do fim para o princípio."

Vergílio Ferreira




O Começo e o recomeço




Após mais 365 dias de translação em torno do astro rei, 2014 está já a balões de oxigénio e pouco falta para se finar.


 Le Roi est Mort! Vive le Roi!


2014 passou sem grandes sobressaltos, embrenhando-nos nesta dormência apática à qual  tão bem nos habituámos.

Foi o ano  dos crimes de colarinho branco, dos crimes de roupa suja, dos crimes contra a humanidade, dos crimes contra a palavra escrita. Facínoras conhecidos, facínoras desmascarados, facínoras encapuçados, todos réus, muitos acusados, poucos condenados.

Pessoalmente, não tive grandes sobressaltos.
Fiz tudo o que me propus fazer.
Disse tudo o que propus dizer.
Perdi o Sam e ganhei a Sally. 
Recebi a notícia de que iria ser avó.
Vivi o meu sonho de adolescente.
Li muito, emagreci uns gramas aqui e ali.
Não operei a malvada hérnia cervical.
Conclui que há exercícios que aprimoram a psique, mas não se processam ao nível do intelecto, tem que se puxar também pelo cabedal.
Continuo a ter um bom emprego, o que é muito melhor do que ganhar a lotaria.
Continuo velha, chata, stressada e rabugenta, requisitos fundamentais para poder vir a tornar-me uma avó de truz.

2015 está a galope e não tarda. Se caminhar semelhante ao ano que se esvaece será seguramente um ano bom, pois se não morri, não poderei de maneira alguma ter razões de queixa.
Basta-me igual

Faço votos.
Votos de saúde, alegria e paz. Votos de muito amor, para quem carece do afago ternurento e macio de uma mão carinhosa. Votos positivos. Votos bons. Votos alegres. Votos em consciência lá mais para as nonas do décimo.


BOM 2015


                                                                                                                                                                                                                              

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Solstício

"O sol que morre tem clarões d'auroras,  / Águia que bate as asas pelo céu! "

Florbela Espanca



Das bandas do poente lamentoso 
Quando o vermelho sol vae ter comtigo, 
- Nada é mais grande, nobre e doloroso, 

A. Gomes Leal 



Quando a Terra , os Céus , o Sol e o Mar, se juntam num poema para nos saudar.


























He takes his seat upon the cliffs, the mariner
Cries in vain. Poor little wretch! that deal’st
With storms, till heaven smiles[...]

William Blake


                                                   


sábado, 20 de dezembro de 2014

Festas Felizes

"Nenhum dia é festivo por ter já nascido assim: seria igualzinho aos outros se não fôssemos nós a «fazê-lo» diferente."

José Saramago




Não precisamos de muito para viver bem – para ser feliz basta uma família e pouco mais. 

A família é a casa e a paz. O refúgio onde uma vontade de chorar não é motivo de julgamento, apenas e só uma necessidade súbita de... família. 


José Luis Nunes








O ar é festivo. O ar de quem passa e o próprio ar que se condensa no afadigar de passos apertados, punhos cerrados sobre sacos, palavras alinhadas em listas sem fim. O frio confere à época aquele toque tão especial que sobressai nas roupagens, camadas várias, quentes e impermeáveis ao ambiente, ao climatérico, ao urbano e ao humano também. 
Riscam-se palavras num papel. Riscam-se nomes. É muito bom saber que já se foi riscado duma lista. É bom pertencer à lista de alguém.

É tradição e as tradições são para se manter, principalmente  aquelas que conseguem reunir pessoas à roda daquele fogo de chama já quase apagada, que é o desejo de pertencer. 
É a isso apenas que se resume a festa da família, pertencer, porque há laços de sangue, mas principalmente porque há laços. Apesar de nascermos integrados numa genealogia, familiares são aqueles que nós escolhemos e que nos escolhem, são o fundamento de sentimentos fortes que ultrapassam  nomes e linhagens, são a quem nós queremos e quem nos quer bem.

É por isso que em Dezembro, independentemente da comemoração que a crença de cada um poderá impor, celebramos principalmente a união, a amizade e a paz, o que para muitos é toda a acepção da palavra família. É tradição. Tradições são importantes, fazem parte da nossa  cultura, da nossa identidade como povo. Que nunca se perca. Que se repita todos os anos e de preferência , mais do que uma vez por ano.


Festas Felizes

Beijos para todos os amigos que me visitam. Paz e Felicidades para 2015.





             

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Insatisfação

"A arte do descanso é uma parte da arte de trabalhar."
John Steinbeck




Exausto

Eu quero uma licença de dormir, 
perdão pra descansar horas a fio, 
sem ao menos sonhar 
a leve palha de um pequeno sonho. 
Quero o que antes da vida 
foi o profundo sono das espécies, 
a graça de um estado. 
Semente. 
Muito mais que raízes.

Adélia Prado







Quem nunca deu de caras com o ponto G da ruptura emocional e psicológica, que atire a primeira pedra. 

Não me digam que se resolve com uma boa noite de sono. Desconheço o conceito há bastante tempo. Talvez nunca o tenha verdadeiramente conhecido. Muitos são aqueles cujo espírito sossega durante as horas de descanso, mesmo que poucas  sejam , vá. 
Eu sou da raça que passa esse mesmo tempo em bolandas e correrias, em diversos e estranhos lugares, sempre com muita gente e em situações bizarras, algumas tão reais que me empurram para um acordar desnatural , extravagante até. Creio que foi sempre assim. 

É claro que é absurdamente fácil alcançar o estado de oblívio total, mas tornamo-nos tantas vezes tão convencidos,  desleixados e auto  indulgentes  quanto à   habituação aos meios que nos conduzem aos fins, que criamos aquele ouroboros de continuidade : não descansamos enquanto não abraçarmos o descanso e  nunca alcançaremos o almejado descanso se não pudermos descansar.

Não há dia que passe, que num qualquer momento, a uma qualquer hora, um qualquer acontecimento não me leve a vegetar pelo delírio das improbabilidades. Olho para as mãos, conto os dedos pela enésima vez e tento convencer-me que afinal já não falta muito, falta é chegar lá.

Uma vez estabelecida a meta, o pódium de toda uma vida de trabalho, o tempo, que sempre correu célere sulcando profundamente o rosto com a marca da sua passagem, esse mesmo, sempre tão apressado em nos carregar a experiência com anos em cima  de anos, dá-se ao desfrute do remanso para nossa exasperação. 

Enquanto aguardo remetida à desvantagem e ao desfavor, cogito sobre os prodigiosos anos dourados ainda no reino do porvir, mas que suscitam ânsias e impaciências sem fim. Irei finalmente poder colher os pomos das hispérides plantadas e cuidadas por minhas mãos durante anos de labuta, e cujo néctar me libertará enfim para realizar os prodígios globais que sempre me motivaram a prosseguir com o meu caminho e a carregar a cruz dos meus dias maus.

Atentando bem na realidade,  todos os meus objectivos são simples, por serem fruto de uma mente simples e pragmática. Coisa para três, quatro anos... 
Cuida-me que em tendo realizado os meus propósitos, ainda me ouvirão lamuriar de insatisfação por não saber o que fazer com o tempo que me sobra e que qual saco sem fundo, nunca consigo preencher a meu contento... 

Não fazer nada é a felicidade das crianças e a infelicidade dos velhos.

V. Hugo

                                

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Heroína

"Feliz aquele que não se condena na decisão que toma."

Textos Bíblicos




"O verdadeiro herói é sempre herói por engano; sonhou ser um cobarde honesto como todos os outros."

Umberto Eco







Não,  não vou falar de cavalo, pó, castanha, merda , H... ou de qualquer outro termo pelo qual é vulgarmente conhecida a heroína, um opiáceo viciante depressor do sistema nervoso, nem da excitação, euforia ou  prazer a que eleva a psique de quem consome, tampouco do infortúnio , da miséria ou das fatalidades que lhe são associadas.


A propósito da morte confirmada  por decisão da família da jovem Tugce, uma alemã de origem turca agredida com violência após ter interrompido uma situação de abuso e assédio a duas menores num restaurante de fast-food em Offenbach, donde resultou traumatismo irreparável, coma e morte cerebral, repenso a minha noção de heroína. 

É certo que são as ocasiões que revelam o melhor e o pior que há em cada um de nós. São tantas as trivialidades do dia a dia que expõem as nossas forças e fraquezas, que nos passa praticamente despercebida a qualidade da nossa vertebração.

A minha profissão, stressante, enervante, gratificante, mirabolante, todos os dias diferente, não é isenta de risco. Passados  mais de trinta anos e alguns milhões de pessoas, já vi muita coisa, ouvi demasiado e intervim algumas vezes. Mediei diversas situações de agressão física, muitas mais de agressão verbal, mas nada que possa sequer almejar alcançar o patamar do heroísmo.

Verdade seja dita, nunca registei qualquer acontecimento verdadeiramente dramático, em que fosse necessário uma decisão rápida,  cirúrgica e eficaz. Mas penso nessa eventualidade. Penso muito, demasiado até.
Os tempos são conturbados e as pessoas imprevisíveis. O que é hoje , amanhã pode não ser. O que é agora, pode esfumar-se em segundos. Ninguém pode prever ninguém.

Penso principalmente no que eu faria se,  ou no caso de... a avaliação, o discernimento, os reflexos, a capacidade de resposta... ou então a paralisia total, o medo, a incapacidade...
Assusta-me pensar que  uma decisão tomada a quente possa ter consequências trágicas e nem estou a pensar na forma em como me atingiriam fisicamente, mas sim em como conseguiria conviver o resto da minha vida com quem me aconselha todos os dias e que conheço pelo nome de consciência desde que me entendo como gente.



                                 

sábado, 29 de novembro de 2014

Talibã

"A pontualidade é uma ladra de tempo." 
Oscar Wilde





"O que me cansa, o que me irrita mesmo, são as desorganizações, o não se cumprirem os horários marcados, os imprevistos que não me é possível controlar."


  Francisco Sá Carneiro








Amor , uma cabana e uma catraia a tiracolo...  um começo pouco auspicioso para uma dupla de ostracizados da moral e dos bons costumes, que quis cortar com as parcas de tesouras afiadas e línguas ainda piores e rumar para outras paragens, distantes o suficiente para não alterar radicalmente a ordem das coisas mas o bastante para nos encontrarmos um ao outro, juntos os três, sem ruído de fundo.
Escolher o Cacém foi ingénuo . Visitar a localidade distante  20 minutos de carro e 15 de comboio  dos nossos locais de trabalho, num belo Domingo de Setembro à tarde, foi ingénuo. Comprar o apartamento  solarengo, num doce 4º andar a contar vindo do céu, de onde se via um ribeiro, que corria entre ervas , árvores e cabrinhas a pastar, foi muito, mas muito ingénuo.
Não demorou três anos para que o pequeno paraíso boçal  se transformasse pelas artes de uma qualquer desconhecida Medusa, na maior selva de pedra da Linha de Sintra, onde a poluição atmosférica , sonora e humana era tão asfixiante e densa que quase se podia cortar à faca.

Se há algo que o meu pai me ensinou e que raramente quebro , é dar valor à pontualidade.
Eu sou o exemplo vivo de um talibã da pontualidade, sou fundamentalista nesse ponto. Não faço ninguém esperar. Não me atraso. Não sou condescendente para quem falha , principalmente para com os contumazes.

Nunca , mas nunca me esquecerei que, recém casados, fomos de lua de mel para Amsterdam. Devido a um acidente na 2ª Circular, que esteve mais de duas horas intransitável, perdemos o avião. Como é possível perder-se um avião? Hummm??  A lição que retirei deste facto, foi que , independentemente de onde me encontre, chego SEMPRE ao local de embarque no transporte escolhido, duas horas mais cedo do que nos é indicado no título de transporte. Há sempre um livro que ajuda a manter viva a eficiência da pontualidade.
A TAP entendeu e reemitiu o bilhete para o dia seguinte graças à simpatia da KLM, e lá fomos a caminho  do frio, dos moinhos, dos tamancos, das flores, do gouda... e do haring, cru, odoroso, intenso ... uma semana e já era uma iguaria.

De volta ao Cacém, retomámos os nossos hábitos diários, tentando contornar situações complicadas e exasperantes que, se ainda o são em 2014, como o não seriam em 1980 ... Estoicamente , sobrevivemos durante 19 anos à custa de muita abnegação.
Foram tempos muito difíceis, mas deixaram recordações maravilhosas e inesquecíveis e uma imensa saudade, principalmente no que toca ao  respeito entre as pessoas, termo já descontinuado nas mentalidades de última geração.

Só a partir 2000, a  talibã da pontualidade conseguiu adquirir para si um pouco de um dos bens mais preciosos do mundo e que tão dificilmente se encontra disponível. Dá pelo nome de tempo e é raro não estar esgotado.



Tempus fugit navi fieri velis et vita ad eam




             

domingo, 23 de novembro de 2014

Σωκράτης

"O juiz não é nomeado para fazer favores com a justiça, mas para julgar segundo as leis."

Platão em "Apologia de Socrates"


"É preciso que os homens bons respeitem as leis más, para que os homens maus respeitem as leis boas."

Socrates








( Elpida, Eurovisão 1979)



A rose... a rose... a rose... a rose in the fountain 
A rock... a rock... a rock... a rock in the mountain 
Alone... alone... alone in your desolation 
You met... you met... you met your extermination 
Socrates, first superstar 
Dressed in a gown, you walked through the town 
Socrates, first superstar 
Teacher of love and of reason, you only could understand 
The words that you spoke still hurt and provoke 
Socrates, first superstar 
For this you were seized and imprisoned 
And killed by your poisonous hand 
A rose... a rose... a rose... a rose in the fountain 
A rock... a rock... a rock... a rock in the mountain 
Alone... alone... alone in your desolation 
You met... you met... you met your extermination 
Socrates, first superstar 
A rose... a rose... a rose... a rose in the fountain 
A rock... a rock... a rock... a rock in the mountain 
Alone... alone... alone in your desolation 
You met... you met... you met your extermination 
Socrates, first superstar 
Superstar 
Superstar 
In front of your grave, so peaceful and brave 
Socrates, first superstar 
You talked and your students would listen to every word that you said 
But people above don't care about love 
Socrates, first superstar 
Your teachings, they said, were indecent 
So they wanted you dead 
A rose... a rose... a rose... a rose in the fountain 
A rock... a rock... a rock... a rock in the mountain 
Alone... alone... alone in your desolation 
You met... you met... you met your extermination 
Socrates, first superstar 
A rose... a rose... a rose... a rose in the fountain 
A rock... a rock... a rock... a rock in the mountain 
Alone... alone... alone in your desolation 
You met... you met... you met your extermination 
Socrates, first superstar 
Superstar 
Superstar

(Traduzido do grego... raio de letra, hum ?)


               


Hoje deu-me para seguir a moda... e o mote do dia é... tcharããããããã! escrever um post sobre Sócrates.~

Eu cá, é como dizia o outro, Só sei que nada sei e conheço apenas a minha ignorância ....


Nota: Superestrela : A super-estrela, após a fase de gigante vermelha, explode numa supernova podendo ou não restar um "caroço" no centro. Se a massa do caroço após a explosão de supernova tiver massa maior do que 2 Mꙩ, este colapsa a um buraco negro


sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Counting Out Time ...

"Apesar de tudo, a loucura não é assim uma coisa tão feia como muita gente julga. Há tantas loucas felizes!"

Florbela Espanca



Já que não tenho, tal como preciso, 
A felicidade que esse doido tem 
De ver no purgatório um paraíso... 
Direi, ao contemplar o seu sorriso, 
Ai quem me dera ser doido também 
P'ra suportar melhor quem tem juízo

António Aleixo




( buçozinho e tudo, olaré !)


Atravessar a adolescência na década de 70, foi uma corrida, um susto , um espanto , um pavor e uma das mais belas e loucas recordações da minha vida.
Foi como atravessar um deserto de intolerância, repressão e medo, e desembocar num oásis luxuriante pleno de cor, ritmo, palavras soltas e êxtase desmedido. 
Abraçar a liberdade sem limites nem imposições, embebedar-se nela , mergulhar de cabeça até perder o pé ... foi a época de todas as loucuras, de todos os excessos e de todos os desencantos.

Gratas são as recordações de ver pela primeira vez um concerto ao vivo : Os Genesis , no Dramático de Cascais , a arte cénica do Peter Gabriel , os back vocals do Phil Collins, tão colocados, colados, indistintos, mágicos, como todos aqueles minutos que terminaram cedo demais, no meio de uma multidão ululante que não conhecia bem "The lamb Lies Down on Broadway" , mas a quem a música falava mundos de entusiasmo e vocalizava em unissonãncia tudo que fazia sentido na vida de quem era jovem.

Gratas são as minhas recordações politico-partidárias, que depois dos percalços do PREC, abracei com ímpeto voraz, como se não houvesse amanhã. Como naquele sonho juvenil em que somos sempre o herói no seu alazão de pau, eu fiel às minhas convicções, quando as palavras se envolviam, revolviam e por fim pisavam e feriam, não desejava nada mais do que abarcar uma boa escaramuça, dar o corpo ao manifesto,arranhar, morder,  rasgar um par de camisas, por gelo num olho azul... valia tudo para fazer valer um credo, um valor , um dogma, uma religião.

A memória mais acalentada, a de encontrar a alma gémea, experimentar pecados loucos, sentir os sentidos a revolver as entranhas enquanto o coração martelava nos ouvidos e saía pela boca em suspiros de perdição. A pele em pelo ansiava pela frescura da lama onde deslizava como veio ao mundo, aquela felicidade que brotava no cabelo em flor daquele Woodstock passado, que só então pudemos visionar.

Depois retornaram os que viviam além mar. trouxeram outra alegria, outros ritmos,  despiram convenções, ofereceram ilusões em forma de verde , que rapidamente inundaram as ideias e os ideais. Depois foi o princípio do fim do conto dos heróis e ninguém viveu feliz para sempre.

Mas foi bom enquanto durou

Às portas de um novo ano que se prevê radical em  promessas de vida, registo esta confissão de lembranças felizes, para que o meu futuro possa um dia saber sobre o meu passado e sorria com a lembrança de que os velhinhos já foram, numa época distante, aquele pequeno ser desarticulado que cabe na cova de um braço e que revela em nós a maior emoção que algum dia poderemos sentir.






                          

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

O alquimista da vida

"O amor tem a virtude, não apenas de desnudar dois amantes um em face do outro, mas também cada um deles diante de si próprio."
Cesare Pavese





[...] E abraçam-se de novo, já sem asas. 
Homens apenas. Vivos como brasas, 
A queimar o que resta da inocência. 

Miguel Torga







Acordou indisposta e ansiosa. Quem sabe nem tenha sequer dormido. Estava cada vez mais pesada e os enjoos e as tonturas atacavam quando menos esperava. 

Como ansiava que aquele dia terminasse... 

Para quê tudo aquilo, tanta preparação, tanta gente, tanta confusão? 
Bastar-lhe-ia ele, ambos de mãos dadas, olhos brilhantes e fé no futuro.

Mas não. Não podia sair-se assim tão airosamente depois do infame pecado da luxúria. A vergonha, o desrespeito, a rebeldia... A família olhava-a de soslaio, balançados ainda na decisão da letra escarlate ao peito. Não fora o receio de que o estigma da infâmia os alcançasse também, certamente a marcariam ostensiva e garridamente,  para poderem lavar a honra na praça pública, na boca das comadres, dos alcoviteiros e alcoviteiras profissionais, dos que dizem cobras e lagartos e dos outros que, por não terem o que fazer, tecem teias de vulgaridade, onde a ignomínia e a maldade pura e simples se entrelaçam em pontos laboriosos e intrincados e onde a vida dos demais ganha a forma que as línguas viperinas moldam no asco das mãos que gesticulam imparáveis, apontando a dedo todos os caídos em desgraça.

Deixou que a levassem no torvelinho da insanidade. Fez-se formosa e segura, afivelou um sorriso complacente e deixou-se guiar pelo braço do pai, ingénuo pai aquele, que a olhou com a adoração que só a ignorância poderia permitir.

Ele esperava, traído pelos nervos, olhos brilhantes com lágrimas mal contidas, igualmente desejoso daquele ocaso. Ouviram surdos todas a palavras, repetiram-nas como sorridentes bonecos de corda a quem se puxara a argola presa ao fio  que lhes pende das costas. Trocaram juras mecânicas. Sorriram-se cúmplices. Sorriram-se cúmplices durante todo o tempo em que a luz brilhou, até aquele momento em que a lua rasgou as nuvens e se perderam nos braços um do outro, sem fingimentos, nem falsidades. Eram  finalmente eles próprios, finalmente sós, os três. Finalmente felizes. 
Passaram 34 anos. Ela sorri com aquela conformação agridoce, à falta que lhe fazem os que já não estão. Pensa nos que virão e aí o sorriso rasga-se com o brilho fulgente de milhares de sóis.
Jurou nunca julgar, criticar, amesquinhar quem pecasse por amor. Até porque amar não é pecado, é a suprema alquimia, a única criação do homem que vale realmente a pena.




                                

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Torn Curtain

"Cresce junto o que foi criado para estar junto"

Willy Brandt



“Havia uma palavra no escuro. Minúscula. Ignorada. Martelava no escuro. Martelava no chão da água. Do fundo do tempo, martelava. contra o Muro. Uma palavra. No escuro. Que me chamava.” 


Eugénio de Andrade







Nasci em ti
Vivi para ti
Respirei a tua voz
Bebi cada mandamento com a sede da convicção.
Dei-me a ti
Dei-me a mim
Dei-te os frutos da minha árvore
Pensei os teus pensamentos
Foi sempre tua a minha vontade
Obedeço-te porque te pertenço
Porque me enclausuras ?
Porque me amordaças com as farpas do arame que me cerca?
Porque me agrilhoas ao betão que me empareda?
Porque não me amas como sempre a ti  amei?




O Braço de Ferro que mantinha firme a cortina psicológica, a mesma que serpenteava abjecta, infame e obscena por mais de 65 quilómetros de agonia, como um corte pútrido, uma fissura longa e inflamada que dividia a alma de um povo, começou a ceder.
Foi Schabowski, sinónimo de a partir de agora, quem sem querer abriu um rasgo, uma pequena fresta que  alargou pela força do perfume a liberdade que a aragem fresca transportava do lado de lá. 
E as asas presas em décadas de opressão , encontraram espaço e voaram exultantes e libertas.
Foi ontem, há 25 anos atrás



                               

sábado, 1 de novembro de 2014

The Russians are comming , the Russians are comming !

"Uma das grandes lições da vida é que os tolos às vezes estão certos." 

Winston Churchill



"O erro está nos meios, bem mais do que nos princípios." 

Napoleão Bonaparte






Não sei o que pensareis vós acerca destas notícias sobre as incursões russas a oeste. Até porque nem as entendo bem:  a oeste já faz tempo que não há nada de novo.

Estarão seguramente a cumprir ordens, estes filhos de um Putin que pariu este novo conceito de passeio de MIG à zona exclusiva da NATO? Em assim sendo, para quê o bombardeiro ? Não estaremos nós cansados de ser incessantemente bombardeados com notícias como esta, verdadeiras, sem dúvida, mas canibalizadas até à medula para conseguirem  suscitar o alarmismo necessário que eleva fracas audiências à potência máxima?

"Às armas! Às armas! sobre a terra e sobre o mar..." subentende o decrépito General, o maior especialista militar do rectângulo, do tempo em que as buchas e a estopa eram de carregar pela boca dos mosquetes, que agora estão às moscas.
Quedei-me a ouvir, sem saber o que pensar. A história sustenta-lhe as palavras criteriosamente escolhidas, que desencadeiam a desenfreada produção da adrenalina imperiosa ao alerta vermelho que desponta em todos e cada um de nós.

Em segundos, passamos do alerta laranja em que apascentamos vai para quatro anos, directamente para o alerta vermelho que indefine o porvir, atentos, advertidos, vigilantes. Se já aconteceu vai para 75 anos, numa conjuntura deficitária, obra de um insurgente alienado e do seu séquito de fanáticos, é absolutamente legítimo pensar que a história se possa repetir mais uma vez, em circunstâncias de idêntica fragilidade.

Conforta-me o irónico pensamento que, de casa arrombada,   rotos ,  esfomeados e praticamente despidos de riqueza, não seremos decerto presa cobiçada por pretensos invasores,  seja qual for a sua cor.

É a guerra ! É a guerra !... ou é chegar, ver e fugir?



                                

sábado, 25 de outubro de 2014

A volta ao Medo em trinta e tal dias ou mais

"O nosso mundo vive demasiado sob a tirania do medo"

Bertrand Russel




[...]Faz como os outros fizeram 
Quando chegou o momento 
De perder o medo à morte 
Por ter muito amor à vida.

Raul de Carvalho








Não é fácil amares o medo.
O medo é devastador, esconde-se no toque húmido de uma carícia, numa lágrima que rola, num beijo molhado, na troca de prazeres selvagens e desprotegidos, numa folha de papel afiada que faz verter uma gota carmesim.

O medo destrói. Mergulha nos teus fluidos ondulantes, insidioso e vil, acoita-se e desenvolve, cresce imundo e letal no teu seio. Aniquila de dentro para fora, mudo e traiçoeiro, até ser tarde demais.

Então ficas só. Isolada do mundo no mundo do medo.

Tens medo, aquele medo que não tem panaceia nem cura. Queres fugir, mas o medo não te permite sair do casulo de clausura a que foste votada, aquela cela estéril onde vives só, só tu e o teu medo. A humanidade lá fora, ficou dentro de uma bolha hermética cujo toque não te toca, por não lhe poderes tocar.
O desespero enovela-se-te nas cordas de onde a voz não desata nem sai. 

No fogo da tua memória, sessões contínuas do filme da tua vida fogem da palavra fim.

O medo levou-te a força, mas a vontade resiste. Até quando, não sabes. Sentes a  dissolução da carnadura, mas o espírito, esse lutará sempre aferrado com unhas e dentes ao medo que o quer destruir, porque aprender o medo é poder amá-lo e sobreviver.