quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Olhos velhos, novo olhar.

"É preciso ver o que não foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na Primavera o que se vira no Verão, ver de dia o que se viu de noite, com Sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aqui não estava."
José Saramago






O vento é bom bailador, 
Baila, baila e assobia. 
Baila, baila e rodopia 
E tudo baila em redor. 
E diz às flores, bailando: 
- Bailai comigo, bailai! 
E elas, curvadas, arfando, 
Começam, débeis, bailando. 
E suas folhas, tombando, 
Uma se esfolha, outra cai. 
E o vento as deixa, abalando, 
- E lá vai!... 

Afonso Lopes Vieira






Os meus olhos já não vêm como viam.

Voei num embalo de vento agreste, à procura do que o meu olhar guardou há tantos anos.
E o vento levou-me onde quis ir. Contou-me sussurrando a mesma história secular que nem a erosão do tempo deixou esmorecer no meu espírito.
Segurei um pé de vento e voei.
Pousei onde tinha estado na aurora dos meus dias, quando tudo era claro ,  alegre e  singelo.
Regressei no entardecer, no momento em que as cores se esbatem no azul plúmbeo de um céu de outono, já gastas pelo passar dos minutos e das horas.







O manancial da palavra escrita que acumulei durante tanto tempo abriu os tomos do conhecimento  e as letras libertaram-se e formaram palavras que giraram e voltearam e me levaram  por pedras e frestas, ao pormenor que desconhecia. 

E vi, vi de novo como se fosse a primeira vez que via.







 Aguardei feliz o pé de vento que me faria regressar, mas demorou.
Deu-me tempo para me perder no tempo e mergulhar no novo olhar.
Sei que no ocaso, tudo será diferente, que os meus olhos não verão como vêm agora.














                   

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Anywhere the Wind Blows ?

 


 ...How many years can a mountain exist
Before it's washed to the sea?
Yes, and how many years can some people exist
Before they're allowed to be free?
Yes, and how many times can a man turn his head
And pretend that he just doesn't see?
The answer, my friend, is blowin' in the wind
The answer is blowin' in the wind








quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Hereditariedade Curricular

"É fazendo que se aprende a fazer aquilo que se deve aprender a fazer."


Aristóteles


Nunca digas  acho que já fiz meu melhor, ou eu tentei.
Nâo há tentativas ou se faz ou não faz.
A cada dia somos melhores que ontem e quando se tem a certeza de sua aptidão e sucesso faz de novo!
É logico que falhas existem uma vez ou outra,mas é com os erros que  vêm os acertos.
Os erros só servem para podermos melhorar a nossa capacidade de acertar.


Yoda





Descendente de antiga linhagem de tocadores de Gaita de Foles, a Neta não se revelou a excepção à regra que todos gostariam e ansiavam.

O primeiro dia de Escola criou falsas expectativas fundamentadas na novidade. Tantos meninos, tanta atenção, tanta coisa para brincar. Adeus Pai, Adeus Mãe, e com um sorriso de orelha a orelha , foi pela mão da educadora conhecer os espaços, cada um mais fantástico do que o anterior. O almoço foi uma paródia, a sesta um bálsamo e o dia um espectáculo. 

O segundo dia foi o recreio, mais meninos , alguns encontrões, mas nada muito grave. Fez-se com um meio sorriso.

O terceiro dia já mostrava o cenho franzido. Afinal tudo aquilo não era uma festa ! A mãe , pobre mãe com o coração nas mãos, deixou-a a choramingar agarrada à inseparável mochila.
Depressa esqueceu o abandono e foi fazer um desenho.

O quarto dia foi a tragédia. Desde que entrou o portão até ficar literalmente a berrar e a espernear enquanto a educadora tentava encontrar uma ponta por onde lhe pegar, no meio de tanto rebuliço.

... E vai ser assim por um tempo. Vai-nos custar mais a nós do que a ela, que será facilmente encaminhada para uma actividade e distraída da sua suposta dor.

Eu chorei três anos seguidos. Com quatro anos, um dos grandes amigos do meu pai e director de um colégio, acedeu deixar-me entrar para a primeira classe. Isso das prés e Jardins de Infância ainda estaria em projecto não germinado no pensamento de um não nado reformador do ensino.
Chorei. A mãe condoeu-se. Afinal era tão pequenina...
Com cinco anos, repeti a proeza com idênticos resultados.
Com seis anos, tinha SEIS ANOS, bolas, a escola do regime contava comigo ! A Mãe chorava por me ver chorar, mas não houve volta a dar. Fiquei. A chorar. E má.
Tenho que honestamente referir que a professora se fartou de mim. Tratou de ensinar quem queria aprender e deixou para o lado quem só queria chorar.
Transitei completamente coxa e o pai falou com o Sr. Director. A partir da segunda classe fiquei no colégio. Mal sabia ler, mal sabia escrever, aritmética era um puzzle... reguadas foram em barda. Aprendi da pior maneira, mas aprendi muito e aprendi bem. 
Se odiava a masmorra que era reino de um dragão disforme à qual me lançavam todos os dias, hoje dou graças a Deus por não haver quem vacilasse ou me tivesse deixado recuar.
Tudo o que sei, posso agradecer aos tais "monstros" que se afadigaram em perspectivar e fundamentar o meu conhecimento.

Segui-se o Mano. Chorou que se desalmou, mas a mãe, quando saía para o pôr na escola, deixava em casa o seu coração de mãe e nunca olhou para trás; já tinha sido a mulher de Lot duas vezes. Aprendeu a não o voltar a fazer. O Mano acabou a quarta classe ainda não tinha nove anos, com uma bagagem de conhecimento invejável, que lhe garantiu o sucesso que alcançou. 

As duas filhas cumpriram a tradição: serrazina, lágrimas, pranto... Chorei muito também, pois chorei, mas tinha o trabalho à espera, e os empregos antigamente não facilitavam atrasos porque os filhos eram chorões e a mães ficavam cada vez mais de rastos à medida que se afastavam depois de  os entregar a desconhecidos, que acabavam por estar com eles mais tempo do que elas próprias. Nunca fui mãe a tempo inteiro. Não tinha como. Corações ao alto. 

O filho do Mano, chorou até aos seis anos. Chorava quando o deixavam e encontravam-no lavado em lágrimas quando o iam buscar.
Nem por isso deixou de ser o grande homem que hoje é.

Estranhamente, só o Menino gostou da escola, gostou sempre, desde o primeiro dia... talvez por ter passado a vida que conhecia rodeado por pessoas antigas e peças de museu...

A neta, fora do seu casulo cor de rosa, tecido pelos pais e pelos avós, vai seguramente sentir falta da sua zona de conforto. Vai chorar, vai ficar triste, vai sorrir e ficar alegre, vai cair e levantar-se, vai aprender. Nós continuamos cá para ela, mas sem casulo nem rede.

 Vai ser uma miúda e pêras.









                       

sábado, 9 de julho de 2016

Movimento "Queremos ouvir os bloggers a declamar poesia"


No início de mais um ciclo estival ao qual carinhosamente chamo " My Bat Nights", articulei este poema  de David Mourão Ferreira, companheiro de muitas noites calidas. 







segunda-feira, 20 de junho de 2016

Viagens na Minha Terra

A cidade não é um lugar. É a moldura de uma vida. 

Mia Couto









Em cada esquina te vais 
Em cada esquina te vejo 
Esta é a cidade que tem 
Teu nome escrito no cais 
A cidade onde desenho 
Teu rosto com sol e Tejo 

Manuel Alegre





Nasci em ti à sombra da Memória, num dia sufocante de um mês estival num ano aprisionado.
Cresci e vivi em ti toda a minha vida.
Conheço-te a cor, o sabor e o aroma, aquele cheiro de maresia e sol, que aflora um sorriso aos lábios mais carrancudos.
Em ti procriei, chorei e ri.
Em ti encontrei a minha felicidade, a que cada um busca para si, aquela que não se sonha, mas se constrói.

Posso correr mundo, mas volto sempre para ti, porque és tu o meu porto seguro, a minha casa, a minha mãe.
Alenta-me a ideia de que um dia seremos uma só e que guardarás bem guardado o meu último suspiro.


Lisboa

Lumen et Mare, ad te insanis


























(Todas as Fotos por MD Roque )

                       

terça-feira, 24 de maio de 2016

Cumplicidades

Todas as grandes personagens começaram por serem crianças, mas poucas se recordam disso

Antoine de Saint-Exupéry 



Eu bem sei que te chamam pequenina
E ténue como o véu solto na dança,
Que és no juizo apenas a criança

Anthero de Quental





Vai ver o que ela está a fazer, está tão calada.
 Não é a tua vez?
Se calhar é, mas estou a pedir... vai lá, vá, vais ?
Voou um jornal desarrumado e um semblante conformado, e foi.

Acho melhor chegares aqui. Pousei o livro e levantei-me em slow-motion , revendo mentalmente qual a calamidade possível advinda de uma caixa de construções em espuma, um tapete, dois gatos e poucas coisas à mão de semear...

Poucas, mas boas.

 O creme das fraldas. A grande bisnaga com abertura fácil para os adultos e inviolável para as crianças que quebrado o protocolo da sua  invulnerabilidade infantil,  jazia vazia a um canto da sala, enquanto uma boca semi desdentada e arreganhada  deixava a sua marca tão branca como a sua face feliz.

Vai ser artista de certeza, diz ele com um meio sorriso. Vai pois, vou já industriá-la na arte do ralhete, respondi atordoada, olhando em redor... tudo branco... nem os gatos escaparam.

Menina feia. Estás a ver ? Sim ? Não se brinca com o creme. Suja. É muito feio !
Gátssssss ! Gargalhou. É feio, que menina má ! Os gatos não precisam de creme ! Não, não !
Olhou para mim e fez beicinho. VÔ! ... e foi refugiar-se nas pernas dele, sentida que deu dó.

Foi o princípio do fim da minha popularidade e o começo da maior e mais bela cumplicidade do mundo. 
O Vô é um babado e a neta não o troca por ninguém...nem pela sua mamã. 

Sou a Vózinha, fico ciumenta, fico sim... ele segreda-me ao ouvido, quando me vê meio tristonha, deixa lá, isto passa, é uma fase. Eu gosto de ti, nunca vai passar, porque nunca foi uma fase, foi sempre amor.



                                                       

domingo, 24 de abril de 2016

Postais

Mesmo que já tenha feito uma longa caminhada, sempre haverá mais um caminho a percorrer

Santo Agostinho




Onde ficava o mundo? 
Só pinhais, matos, charnecas e milho 
para a fome dos olhos. 
Para lá da serra, o azul de outra serra e outra serra ainda. 
E o mar? E a cidade? E os rios? 
Caminhos de pedra, sulcados, curtos e estreitos [...] 


Fernando Namora








As palavras estão todas aqui. Podem não se ver, mas o sentimento é tão avassalador que as grita a Tramontana, Ostro, Levante e Ponente.

 A maldade e a ignomínia ficam para trás por breve trecho, para que a harmonia possa sublimar o espírito sedento de paz e guiá-lo  em contemplação.

Senti o seu braço no ombro e o suave aperto. Um gentil toque de cabeça, um olhar meigo, um sorriso. 
Não precisamos falar para saber que somos afortunados.




































Todas as Fotos por MD Roque