sábado, 12 de agosto de 2017

Acender Fóforos


"Jogo fogoso, jogo perigoso"


Provérbio









Liguei o modo mecânico .

Deito-me tarde, durmo mal, acordo tarde depois de noites transbordantes de sonhos em demasia, muita gente , muita confusão, sempre casas, muito mar e fósforos.

O modo mecânico não é novidade. É uma habilidade que uso para passar o meu tempo de morcego sem danos pessoais ou colaterais. Só ligo ao que é importante, o resto fica em arquivo de memória para analisar quando estou sozinha e posso verificar objectivamente e atribuir a relevância que merece.

Os fósforos são aquisição onírica recente. Não sou nada destas coisas de signos ( apesar de ser Leão e de gostar dos predicados que atribuem aos leoninos) nem sequer de interpretações de sonhos. Atribuí o aparecimento dos fósforos nas minhas fases de REM, aos fogos que  lavram tristemente um pouco por todo o país,  cuja intensidade só é equiparada à da inundação  massiva de notícias sobre as frentes activas, playground de qualquer pirómano lascivo,  e o que os infelizes populares e bombeiros passam para os controlar até à extinção total  e   sem os apoios milionários que, como quase tudo em que se investe para o bem do País e das populações, funcionam pouco, funcionam mal ou não funcionam de todo. 

Mesmo assim, não resisti à curiosidade mística de procurar saber o significa sonhar com fósforos. Tudo bom. Amigos , vitórias, sei lá. Prender-se-á com a conquista do fogo ? É possível.
Tudo fantástico até  o  fósforo nos queimar ( no sonho, pois claro) ; aí são só desgraças, aflições e angustias.

Terá a ver com os dois loucos que andam a brincar com o fogo ?   É muito possível até.
É coisa que me trás frequentemente em sobressalto. Não quero acreditar que pessoas esclarecidas não saibam que o Game of Thrones é apenas ficção e que não se lançam dragões  nucleares contra pessoas, só porque sim, porque quem quer, pode e manda.
Isto é coisa de meninos mimados com birrinhas , o problema é não saber quem tem a caixa maior,  com mais fósforos e quem acende primeiro.









terça-feira, 1 de agosto de 2017

Subliminar ... ou então não...

Não sei porquê, mas estou em crer que a minha filha entrou em fase de preparação para o futuro... o Nosso futuro... o meu ,  o dela e o da minha neta.

A pensar nas Férias do ano que vem ?

Assim a modos que a brincar... enviou-me um artigo que o jornalista Paulo Farinha publicou no Magazine Digital. e que eu passo a reproduzir na integra, porque achei que o recado ficou entregue.

Então foi assim que entendi






"Recados para uma avó que vai ficar com os netos alguns dias em Agosto :


A AliCee não come arroz. Diz que fica enjoada. Ainda não percebemos bem de onde vem isso, pensámos que fosse do glúten, mas ela só come arroz sem glúten. Aliás, ela não come glúten. A nutricionista naturopata recomendou. Também não come ovos de aviário.



• Deixei um saco com comida para os miúdos. Arroz sem glúten, massa sem glúten, bolachas sem açúcar, alfarroba desidratada e biscoitos de aveia e quinoa dos Andes.
• Não lhes dê bolos de pastelaria. Nem sumos de pacote. Nem leite de vaca. Nem chocolates. Nem leite com chocolate.
• Eles não comem nada que tenha açúcar refinado. Eu sei que a mãe faz um bolo de cenoura ótimo, mas se fizer use apenas açúcar amarelo. Mas só metade da dose. E cenoura biológica.
• Deixei também açúcar amarelo. É especial, extraído de cana-de-açúcar explorada de forma sustentável.
• Se eles insistirem muito para comer doces, dê-lhes uma peça de fruta biológica. Ou um abraço.
• A Alice pode brincar com o iPad dela antes de ir para a cama. Mas não nos últimos 34 minutos antes de apagar a luz. É o que dizem os estudos mais recentes.
• Se ela ensaiar uma fita por causa disso, não o contrarie de mais. Não lhe tire o iPad das mãos à força. Dialogue com ela. Convença-a. Queremos que os miúdos tenham capacidade de argumentação e não queremos contrariá-los de mais, para não serem castrados na construção da sua personalidade. No fim, dê-lhe um abraço.
• O iPad é a única coisa eletrónica que a Alice tem. O psicólogo dela dizia que não devia haver tecnologia nenhuma até aos 12 anos. Mudámos de psicólogo e o outro diz que pode haver, desde que tenha jogos que estimulem a parte do cérebro onde se constroem as emoções. Como ficámos baralhados, arranjámos um terceiro psicólogo, que disse para fazermos o que quisermos.
• Ela tem uma série de brinquedos de madeira e metal, feitos por artesãos velhinhos. Às vezes queixa-se que as rodas de lata não andam. Se for o caso, ajude-a a brincar com outra coisa qualquer, desde que não tenha plástico. Não queremos brinquedos de plástico.
• Se forem à feira e ela quiserem comprar bugigangas nos vendedores, compre-lhes uma rifa. Ou uma maçã. Ou dê-lhe um abraço.
• Todos os brinquedos devem ser partilhados. Não há brinquedo de menina e brinquedo de menino. Se o João quiser brincar com as bonecas de linho biológico da amiga, não há problema.
• Se ele quiser vestir as saias dela, também não há problema. Não queremos limitar a identidade de género dos nossos filhos.
• Há um saco com sabonete natural e champô à base de plantas medicinais sem aditivos químicos. Cheira um pouco mal, mas é ótimo para o cabelo.
• Mandei também umas toalhas de algodão biológico. Use só essas quando forem para a praia. São as melhores para o pH da pele deles.
• Todas as noites eles devem ouvir um pouco de música. Não pode ser o Despacito. O ideal é ser aquele CD de monges tibetanos. Aqueles sons são bons para o cérebro e para a digestão.
• Se eles quiserem subir às árvores, podem subir. Mas devem dar um abraço ao tronco antes disso. De preferência, devem agradecer à árvore antes de subirem para cima dela.
• Eles precisam de três abraços por dia. Pelo menos. Por favor não esqueça isso. E se puder, dê-lhes abraços de pele a tocar na pele. A energia positiva assim passa de forma mais eficaz.

PS 1: Mãe, não se enerve depois de ler isto tudo.
PS2: Cole este papel na porta do frigorífico, para não se esquecer de nada. Mas não use fita-cola, que isso tem plástico"

Para bom entendedor, bastou uma publicação fantástica  :)


domingo, 9 de julho de 2017

Vencida da Vida ?


"Nada é mais fácil do que se iludir, pois todo o homem acredita que aquilo que deseja seja também verdadeiro"

Demóstenes






 


Muitos posts atrás quando iniciei os Ditos e Escritos e para me situar no espaço e no tempo,  escrevi sobre acontecimentos da minha vida passada. Nunca escondi que o PREC foi a pior altura da minha existência, ultrapassada com alguma adaptação às dificuldades do momento em que se vivia e com a filiação no Partido Socialista, corrompendo de algum modo os ideais pela continuidade. Vivi o partido por dentro, por isso sei. Quando falo,falo do que sei porque experienciei. Não falo apenas porque li ,  ouvi falar ou consta em manifestos.

Assim que a abertura proveniente de nova mudança se proporcionou, pude regressar a mim  e assumir o PPD de Sá Carneiro sem medo de repercussões. Pode ter nascido um mito. Nunca saberei se era ali que estava realmente Portugal. Toda a minha fé partidária se esfumou num triste 4 de Dezembro em Camarate.


A partir daí, tudo perde por comparação e a  ideia recorrente sobre a política no nosso país no pós 25 de Abril,  é que  todas as  eleições legislativas obedecem ao conhecido axioma de que  só mudam  as moscas.


Foi para mim e alguns milhões de Portugueses extremamente gratificante a prisão de José Sócrates no âmbito da Operação Marquês. Deu-nos uma pequena experiencia em democracia na sua verdadeira acepção. Se um Ex-Primeiro Ministro pôde ser detido por corrupção e tráfico de influencias com vista à obtenção de proveitos, ninguém iria ficar impune neste país, fosse qual fosse o crime que cometesse, porque afinal as instituições democráticas funcionam bem e recomendam-se.

Nada mais ilusório.

O prisioneiro 44 de Évora esteve a expensas do estado, escreveu livros, deu entrevistas e continua por aí, a carpir o martírio e as injustiças e a pedir a beatificação.

Vão mudando as cores, mas é só. Os trafulhas continuam a pavonear-se pelo Tamariz, outros por Paris, outros por Maiorca e continuam a delapidar o erário público com os mesmos exageros que apontavam aos antecessores. Continuam a gozar de uma impunidade radicada e estabelecida em relação a algo que sempre prezei muito durante toda a minha vida : RESPONSABILIDADE.

Não prevejo melhoras. O balão de oxigénio foi retirado, mas apenas para refill . Há-de voltar. Virá  cheio? Espero sinceramente que seja suficiente para todos, porque esta terra queimada de tantas políticas , já não  consegue produzir mais táticas.








sábado, 1 de julho de 2017

Invasões

(...)"Eia! eia! eia! eia-hô-ô-ô! 
Eia comboios, eia pontes, eia hotéis à hora do jantar,[...]
A grande invasão dos bárbaros amarelos pela Europa" (...)

Álvaro de Campos








Portugal exporta bens e serviços , mas um dos produtos com maior venda internacionalmente é o turismo.

Lisboa tem sido nos últimos anos o ponto de encontro de todas as nacionalidades , raças, culturas e religiões que pisam a Europa, e o Portugal profundo recentemente descoberto pelos ludambulistas nacionais e internacionais, é considerado um paraíso de tranquilidade a preços convidativos.




Vejo passivamente todos os dias entre as 10 e as 20 horas, Lisboa ser invadida pelos bárbaros.
Que nos é fundamental esta invasão para o crescimento económico, nem sequer ponho em causa.

Mas o turista que cá vem, não sabe ser turista: paga, manda e quer. Exige. Reclama !
Reclamar está na moda. Toda a gente bem lá no fundo tem uma pequena costela de escritor.
 Porque não começar pelo vermelhinho Livro de Reclamações, onde se pode dar azo à imaginação ou escrever o que nos vai na alma ? Está calor ? Reclama. Está frio? Reclama. 




Encontrar hotéis, Inns, Airbnb's, Hostels, etc. em Lisboa, basta descer a Av. da Liberdade até ao Terreiro do Paço e apontá-los, porta sim, porta não.

Apoiei a Taxa Municipal que a CML aplicou. Todas as outras cidades da Europa já o fazem há anos e se é para ajudar a criar um bom suporte de infraestrutura turística, apoiado !

Gosto de ser turista lá fora e cá dentro e de ter direito aquilo a que me propus e paguei para ter. Mas nós portugueses, que somos tão mal afamados, comparados a "criminosos de guerra" porque supostamente gastamos o que temos e o que não temos em "mulheres e bebida", somos civilizados o suficiente para entender que ver não é mexer  nem estragar. É aprender e gostar. 

Depois de ter referido o Convento de Cristo, em Tomar, garanto que em Lisboa, Porto, Braga, Évora, Sintra,etc.  Museus, Palácios e outros monumentos, para além das próprias cidades que não estão minimamente preparadas para receber tanta gente ( atentemos, por exemplo a falta de WCs públicos), sofrem as agruras da erosão desgastante de milhares de visitantes diários.



A questão aqui é que a chamada época baixa, quando se acalmava o movimento e se começava com o balanço e os preparativos para a nova invasão, que noutros tempos principiava  no despontar da Primavera e ganhava força após o Solstício de Verão, deixou de existir. A entrada de turistas é praticamente  constante durante todo ano, apenas com picos mais acentuados nos meses quentes.

Se se estão a tomar medidas de prevenção, reparação e inovação, não sei. Dizem que sim. Dizem sempre que sim, mesmo quando a resposta é indeterminada.

Pergunto-me quanto tempo durará a nossa cultura, a nossa história viva, os nossos testemunhos de pedra,  debaixo dos pés destas hordas de visitantes pouco civilizados que nunca irão parar de chegar. 



Todas as fotos por MDRoque




                    

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Escritora por um dia

Vivemos numa economia de informação

Steve Jobs







A informação pode nunca ser demasiada, mas ultimamente é excessiva. Cansa.
É repetitiva, explorada e doentia.

Quem não gosta de andar bem informado? Descobri o Delito de Opinião (e de Informação) por acaso quando há cerca de 4 anos fazia pesquisa online para um post.
Li  (e continuo a ler) tudo, sem sequer me atrever a escrever.
Comentar foi uma aventura que não imaginei possível. Daí à ser leitura obrigatória foi um pulinho.
Hoje deram-me a honra de ser a convidada do dia para escrever um texto meu !
Os Senhores e Senhoras das palavras !

Muito me honrou e muito lhes agradeço.
É fenomenal a sensação de ser escritora por um dia !

O Blog será sempre uma referência incontornável para mim todas as vezes que precisar ver a realidade através todas as sombras de todas as cores e sem acordo ortográfico.

Obrigada!

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Ogre


"A estupidez coloca-se na primeira fila para ser vista; a inteligência coloca-se na rectaguarda para ver."


Bertrand Russel 







Conheci-o há um ror de anos, naqueles tempos em que o verbo era trabalhar.

Rufião e inculto, sabia tudo o que a universidade da vida lhe tinha ensinado e pretendia usar toda essa arte com a finura e a astúcia que compensavam largamente o que lhe faltara em educação. Um verdadeiro doutor em tudologia, como se diz nos tempos que correm, pós graduado em tudo e doutorado em nada.

Filho de um mastim do antigo regime que utilizava os seus privilégios conjugais como saco de box, cedo se viu entregue aos descuidos paternos, após ausência definitiva da   progenitora em parte incerta.

Cresceu na rua. Fez-se homem. Poderia ter-se feito um bom homem e uma excelente pessoa  se quisesse. Não quis.

Não olhou a meios para atingir os fins, insinuando-se em enredos e farsas sempre com o cuidado de apresentar a fachada  tão em voga do bom rapaz trabalhador. Nunca se coibindo de espezinhar inimigos ou  amigos,  conseguiu ludibriar os mais incautos cuja apetência à função era verde e bebiam sofregamente daquela fonte salobra de água filtrada.

Perdia-se por saias, mas com aquela filosofia que os seguidores do profeta tão bem abraçam, porque fêmea é para usar e cuspir em cima. Completamente abjecto e desprovido de senso ou sensibilidade, fez  correr rios desesperados de lágrimas vexadas.

Conseguiu ser cardeal sem ponto nem ponta, numa congregação de estropiados incultos e sem qualquer autoestima , que se vendiam a troco de favores menores, humilhando-os sempre que a ocasião lhe era propícia, para poder marcar terreno e animar as hostes com farto gargalhar.

Atingiu o endeusamento que ambicionara e por muito tempo foi a eminência parda de um regime facilitista. Talvez por tempo demais. Não havia nada que quisesse que não lhe fosse permitido ter ou fazer.

Um dia, as sortes foram-lhe desfavoráveis. Finalmente. O truque barato encontrou  ouvidos moucos e cabeças com mais do que três neurónios uns patamares acima. Caiu. Tombou. Ficou a nu.

Já não eram suas as ideias que durante tanto tempo roubou aos "loucos perigosos" que as formulavam e que meses depois as viam travestidas de roupagens, a serem apelidadas de geniais e fruto da única cabeça com valor pensante que era possível encontrar por aqueles lados.
Já não eram seus os comunicados  escritos criteriosos e racionais, remodelados a partir de tiradas ricas em chavões´quase futebolísticos de gramática e ortografia duvidosas,  onde se limitava a assinar pomposamente o nome.

Muito a custo conseguiu não ser excluído dos destinos da arraia miúda, mas a vida e as quedas nada lhe ensinaram. Continua a bajular os fortes e a rebaixar os fracos e os não tão fracos, espertalhões da mesma laia que também aprenderam que a lisonja é recompensada e que se reconhecem como aves da mesma espécie.

Continua a professar os credos de que é profeta, onde o hedonismo lascivo pontua e tenta recolher o máximo de dividendos que pode de uma fonte que para ele só goteja.

Poderia compará-lo ao DAESH na forma, na acção e no conteúdo,  não fora nunca reivindicar os atentados contra a ética,  moral, as boas práticas e os bons costumes que perpetra quase numa base diária e dos quais é sempre, mas sempre isento de toda e qualquer responsabilidade.








segunda-feira, 12 de junho de 2017

Upa lá !


"Ó meu rico Santo António,
 Tu és um demónio,
 Tu és um judeu,
 Ó santinho da pedincha,
 Foste uma pechincha
 Que nos apareceu!
 Até mesmo os pobrezinhos
 Dão cinco reizinhos P"ra te dar a ti!
 És um santo milagroso,
 De pau carunchoso,
 Como eu nunca vi!
 Tive uma devota,
 Que era já velhota,
 E veio até mim rezar:
 Ó Santo Antoninho, Dá-me um rapazinho,
 Que eu também quero casar."

        ( Trocadilho Popular muito em voga, que a Avó Júlia cantava)






Vá, agora seguras assim e enrolas com linha à volta, dizia a minha Madrinha, sentada comigo no pial de pedra da entrada, ambas entretidas a dispor em arranjos coloridos, espécies enviesadas de flores de papel que enfeitavam arcos de arames ferrugentos forrados a corda de amarrar serapilheiras e papel de seda. Eu queria era brincar com os "harmónios" que a Madrinha chamava balões não sei porquê, pois até tinham lá dentro uma cruzeta de madeira com um prego, onde espetavam uma vela, mas não podia ser, porque não chegavam para pendurar nos arcos todos.
A ti' Antónia da Fava Rica andava com a Almerinda aos gavetos na quinta depois de saltado o muro, para os amontoarem bem no meio do Largo do Carvoeiro, onde mais tarde se acenderia a fogueira.

A fogueira.

O fogo  tem o fascínio do ouro e a beleza de uma besta indomável e irrequieta que brilha no escuro com fulgências e tonalidades mais rebuscadas do que a mais louca das fantasias.
Era absolutamente fantástico ficar virada para o muro da quinta, de costas para a fogueira. As sombras agigantavam-se e moviam-se loucas e sinuosas, eminências pardas de um reino negro e luzente que crescia e se agitava a cada crepitar da acha, criando miragens de fumo e calor ondulante que cheirava a resina e a verão.

O avô chegava-me à beira do fogaréu e upa! Já está ! E eu ria feliz e corada , seguindo com o olhar as faúlhas que se libertavam e que eu acreditava seguirem directamente para o céu, para se juntarem aos outros pontinhos brilhantes.

Havia concertina e guitarra e vinho. Havia cantigas. Havia a marcha de braço dado, toques de pele e trocas de olhares. Havia pão e bolos e limonada... e pirulitos com bola !

Sardinhas, só mais tarde.

Havia amizade e bailarico até os pés não poderem mais sustentar tanta folia.

O Carvoeiro é agora uma oficina fechada. No largo, os moradores só se conhecem do bom dia, boa tarde.
Será que sabem o que é um trono de Santo António ?
E uma fogueira comunitária ?

Passei lá o mês passado. Ainda ecoavam os risos daquela noite em que a Vizinha Custódia calculou mal o salto e o fogo, matreiro que só ele, ferrou-se-lhe à combinação de renda estreada para a ocasião, e lambiscou-lhe metade, sem que ela desse por isso.










sexta-feira, 9 de junho de 2017

O Demónio e Mr. Prim

"Em cada esquina te vais
Em cada esquina te vejo
Esta é a cidade que tem
Teu nome escrito no cais
A cidade onde desenho
Teu rosto com sol e Tejo"


Manuel Alegre





Aconteceu no passado mês de Abril. 

Quase todos os meses de Abril, de há alguns anos a esta parte,  saímos a para recarregar baterias, coisa que toda a gente que trabalha muito, tem gatos, filhos e netos, deveria fazer para manter a sanidade mental. Desligar... não totalmente... só um bocadinho, mas desligar sim, e recuperar a vida a dois, nem que seja por apenas  3 ou 4 dias.

Este ano calhou escolhermos a República Checa. Calhou também decidirmos fazer uma caminhada de cerca de 20 km pelo Bohemian Saxon Switzerland National Park.

Partimos de Lisboa com tudo organizado ao pormenor e fomos informados na véspera do passeio que Mr. Prim, o melhor guia para aquele tour em particular, nos iria buscar ao hotel às 8:00h.
Fantástico! Estávamos realmente expectantes.
Aconteceu como previsto. Durante a viagem de automóvel demo-nos a conhecer e ficámos a conhecer Mr. Prim na medida do possível.

Escusado será dizer que a meio do caminho para  Pravčická Brána tive que fazer uma pausa para me reunir com as minhas pernas, que tinham entretanto resolvido entrar em greve devido a exigências não regulamentadas na ACT.
Após as promessas da praxe,  chegámos a acordo, para o que muito contribuiu a chegada ao Falcons Nest, com descanso e um bom almoço a acompanhar.

Como não podia deixar de ser, convidámos Mr. Prim para nos fazer companhia.
A meio da refeição, dei a volta à conversa e em vez de fazer as habituais  perguntas sobre a República Checa, resolvi perguntar o que sabia Mr. Prim sobre Portugal.

Mr.  Prim , que já tinha estado em Lisboa há cerca de 5 anos, não gostou. A cidade era feia, suja, e sentia sinceramente pelos portugueses, porque viviam em condições de extrema pobreza…
É certo que as notícias sobre o País não têm sido fabulosas, mas seguramente Portugal tem uma qualidade de vida superior à da República Checa, retorqui. Sorriu condescendente e respondeu que lá ( na Rep. Czech) não viviam em casas de madeira sem saneamento básico.

Não pude deixar de rir, mas rir mesmo. Onde , pelo amor da santa, terá o Mr. Prim ficado hospedado e por que caminhos terá andado para se deparar com aquela dantesca realidade. 


Não consegui saber muitos pormenores. Acredito que a visita de Mr. Prim fosse coisa tipo relâmpago, pois pouco ou nada sabia de Lisboa, para além da anunciada pobreza e más condições sanitárias. Que o hotel não ficava longe do rio e passava pelas tais "barracas" para  chegar à margem.

Quem me conhece minimamente, sabe que quando acredito que tenho razão não me calo, e o pobre Mr. Prim passou mais de 10km, até às Edmund Gorges a ouvir sobre a minha terra e a história das pseudo-casas de madeira.
Castigou-me com a descida mais íngreme e escorregadia da minha vida, mas apesar de ter uma preparação física a anos-luz da nossa, garanto que acabou mais cansado,tal não foi a injecção sobre Lisboa que lhe ministrei.


Mas por muito que tentasse, foi impossível contornar aquela impressão negativa de uma cidade salobra e escura que Mr. Prim tinha gravada nos recônditos do seu disco rígido.

O meu passeio ao Parque foi estupendo. Aconselho vivamente.

Lamento apenas que o nosso País,  tão bonito, tão brilhante, N vezes ao quadrado mais  simpático do que a República Checa, seja tão erroneamente interpretado.
Estes turistas que nos chegam em Fam Trips , vêm tantas vezes "comprar" o destino para o poder incluir nos seus pacotes de tours .

Chegados cá, a que demónio será entregue a organização da sua estadia ? Não acredito que o Turismo de Lisboa que normalmente dá a conhecer a nossa capital com tanta clareza e desvelo, tenha transformado mais uma oportunidade de "vender" Lisboa num passeio à timberland...




( Foto retirada da internet)

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Selinho Blogue em Bom










Bom, ao que parece a "corrente" dos selinhos terminou, ordens de nosso Senhor.

De qualquer modo, já que me foi passada uma "intenção de voto", gostava de expressá-la em relembrando o Lourenço e os "Sonhos do Tipo D",  "O Tolan" de boa memória.


Tenho pena que tenha parado de escrever no blogue, porque é um  excelente escritor.

NM, sempre às ordens.

Foi óptimo não ter que nomear 5 Blogues de referência porque os meus preferiti, aqueles em Bom mesmo, tirando um ou outro em melhor ainda, já estavam todos com menção honrosa.

E pronto, acabei por furar o que restava das regras.

Obrigada a  D. Pipoco de Mäis au Sel



sábado, 27 de maio de 2017

Pancadas...










Quem possui a faculdade de ver a beleza, não envelhece.


Franz Kafka

( Considerando que é alguém com uma pancada Muito superior à minha)







Do alto do meu quase sexagenarismo, interpreto  o que se passa ao meu redor talvez com uma percepção diferente da realidade - da realidade que eu entendo - algo discordante do que poderia ter concebido há um par de anos atrás.

O tempos são outros. Eu  nem por isso, ou antes, não queria , mas também mudei, claro. Já não subo à figueira grande ( enorme desafio gravitacional)  para arremessar dissimuladamente laranjas podres a quem passa, mas psiquicamente falando, não amadureci muito mais do que isso.

Em minha casa,  por motivos decorativos , tampouco narcisistas,  não existem mais do que 4 espelhos. De qualquer modo, as nossas rotinas diárias passam por nos avistarmos com a imagem do que mostramos por aí, praticamente todos os dias de manhã.

A que os meus espelhos me mostram não me espanta nem num bom nem num mau sentido. Serei talvez melhor do que a minha forma cosmozoária , mais formada do que a minha forma embrionária, menos atractiva do que a minha forma infantil, muito menos atraente do que a minha forma juvenil, bem mais amadurecida e pesada  do que a forma intermédia, mas não completamente repulsiva, tampouco desagradável.

Já referi que mentalmente, estou muito à frente, certo? Creio que neste caso particular quererá antes dizer muito atrás...

 A pontualidade sempre foi para mim ponto de honra, por isso raramente me atraso e nunca me deixei ficar para trás. Acompanhei as evoluções no seu melhor e também no seu pior e em certos aspectos sou mais entendida, mais culta e mais jovem do que muito jovem que por aí pulula com a mania da tudologia.

Pode esta , chamemos-lhe assim, "frescura de espírito" ser de algum modo atractiva para miúdos que poderiam ser meus netos ?

Não quero dedicar muito tempo a tentar entender a cabeça dos outros, porque tenho a firme convicção que a realidade que eu entendo pode ser diametralmente oposta à que é percepcionada pelo meu vizinho do lado, mas confunde-me que para além dos galões, haja quem veja nesta que vos escreve uma elegante e sexy louva-a-deus devoradora de machos tenrinhos...

Estranha metamorfose, grande esquizofrenia ou indubitavelmente uma enorme pancada...

Diz-se que o povo e sereno... diz-se tanta coisa... Aqui  a sereníssima  tem sido TÃO, mas tão paciente...


( Todas as fotos : MD Roque


terça-feira, 23 de maio de 2017

Castelos de saudade (I)


O tempo não pára, só a saudade é que faz as coisas pararem no tempo.

Mário Quintana







A tia Adelaide que Deus tem em descanso há quase duas décadas , morava com o segundo marido, numa casa antiga . O  Tio Marcelino depois de praticar religiosamente o seu desporto  favorito, dormir duas ou três horas diárias de modo a recuperar energias gastas a fazer laboriosamente o menos possível, acedia de bom grado aos pedidos que a esposa gentilmente lhe ordenava, e bricolava pela casa de modo a que a mesma se assemelhasse cada vez mais àquele antiquário que a Tia Adelaide adorava visitar na Rua de S. Bento.

Um quadrozinho por outro com qualidade, pinturas do Sr. Monteiro do atelier copiando os Mestres, ladeava com molduras com recortes de revistas e pósteres  tauromáquicos onde pontuava o nome da estrela da família o trisavô Manuel dos Touros.

 Caixinhas de música, loiça chinesa , jarras, vasos, potes, um sem número de preciosidades com que o Senhor Doutor , alto dignitário de Portugal em Macau presenteava a Tia Adelaide pelos seus dotes de passajar roupa de tal modo que os infelizes buracos de cigarro se perdiam na magia da agulha e do dedal. A Tia Adelaide não teve filhos, por isso colecionava pequenas peças do Bordalo num aparador envidraçado, que mostrava a quem a visitasse, sem nunca permitir que um "seu menino" deixasse a sua mão. Podiam muito bem ser admirados  de longe.

A casa da Tia Adelaide era alta e castiça, e não fora a falta dos fados e guitarradas, bem poderia ter sido a inspiração de Alberto janes para as célebres tabuinhas. Tinha uma escada estreitinha que levava a um sótão com uma banca de carpinteiro e novelos de aparas de madeira pelo chão, lugar mágico, onde eu buscava e rebuscava, tentando encontrar os macaquinhos que o meu Avô afiançava que a sua irmã mais nova possuía no sótão, sem qualquer sombra de dúvida.

Escusado será dizer que os nunca encontrei.

As janelas, altas como portas, davam para o Jardim do Ultramar, separadas apenas por uma nesga de rua e um muro. Passava horas a atirar pão duro aos patos, a assistir a corridas e lutas pelos pedaços e a imaginar histórias  mirabolantes , enquanto me deliciava com bolachas de agua e sal com colheradas generosas de doce de tomate.

O Tio Marcelino, dez anos mais velho , de 1900, como orgulhosamente apontava, partiu também 10 anos mais cedo. A Tia Adelaide manteve-se ali, rija, enquanto as pernas lhe permitiram. Depois, com grande pesar de deixar o seu cantinho e os seus quadros de natureza viva, que se animavam mal abria as portadas, foi viver com familiares até chegar a sua hora.

Lembraram-me hoje de ir espreitar a casa da Tia Adelaide.


De cara lavada e com plástica bem conseguida, brilha naquele filamento antes parelepípedos escuros, agora clara e alegre calçada,   como uma relíquia que finalmente viu luz.

Não passou sem emoção é verdade, mas acredito que, gaiteira e divertida como ela só, a Tia Adelaide iria achar a casa um palácio.

Para mim foi revisitar o palácio da saudade.






segunda-feira, 15 de maio de 2017

Sonha comigo

"...You are not wrong, who deem
That my days have been a dream;
Yet if hope has flown away
In a night, or in a day,
In a vision, or in none,
Is it therefore the less gone?  
All that we see or seem
Is but a dream within a dream."


Edgar Allen Poe







Porque raio estará o gato a vomitar para dentro das sapatilhas de caminhada ? Se está mal disposto, não é seguramente ali que vai se vai aliviar de brisas frescas...

 Susto! Acordo estremunhada  e sem sombra de felinos nas imediações, mas o grito apavorado ainda ecoa no meu subconsciente que o captou e foi ampliando progressivamente, até tomar proporções gritantes de trombetas apocalípticas... seis e meia da manhã, caramba ! Salto louca da cama, não reparando que o sudário beije se enrolara sensualmente num tornozelo, e zás!  o tapete Arménio subiu que nem um foguete de encontro à minha cara meia dormente de sono.


Não sei quanto tempo demorei a sentar-me e a perceber-me... uns eternos 10 segundos, talvez mais.
Consegui muito a custo sair do quarto esperando a todo o momento dar de caras com um encapuçado negro de segadora na mão...


Abre, solta-me, abre , liberta-me, gritava em plenos pulmões uma figura de mulher farta, desgrenhada, enlouquecida, transfigurada e ao mesmo tempo estranhamente familiar, que encerrava por entre os dedos crispados de um punho cerrado, um cadeado escuro e ferrugento.


Olhou suplicante para mim. Chorava. Abre, liberta-me, falava entrecortada e ofegantemente sem largar a tranqueta pardacenta ... por favor, abre. Olha para mim, disse-lhe, olha. Reconheci imediatamente aquele olhar que conheço desde que nasci, calmo e sonhador, jovial e decidido, mas tão transtornado por um medo, uma ansia que lhe parecia toldar a razão.
 Escuta, dá cá o cadeado, dá-mo! Põe-no aqui na minha mão, vá . Vês ? Não precisas de qualquer chave nem sequer de o abrir para te libertares, mira-o bem e desmerece o facto do que ele possa ter sido. Já não é coisa alguma que te possa atemorizar; quanto muito provoca aversão,   está velho e gasto e só pode prender preconceitos, intolerâncias, incompreensões, fanatismos, facciosismos e inclemências, e tu não és dessas coisas, nunca foste. Se puxares a argola com força e a firme convicção de que és livre , vais ver que rebentas com qualquer réstia que ainda se lhe prenda. Experimenta.
 A vontade e a força partiram a tranqueta pelo gonzo deixando no ar um cheiro acre a vilanagem e  ferrugem. Vi os  humores iluminarem os olhos assustados, a cor voltar ao rosto e afivelar-se aquele meio sorriso que lhe desanuvia o cenho e desenha um arco de calma e  ponderação.

Deixei-me sentada no sofá, tranquila, a tomar uma tisana quente, enquanto afagava o pelo sedoso da gata que ronronava a cada passagem da mão. Sorri. Voltei para o aconchego , deitei-me e adormeci contente.
Sonhei que estava a dormir, deitada num pião gigante que rodava sem parar.


( All fotos by MD Roque)