sábado, 25 de março de 2017

Da cegueira

"Não pode haver maior cegueira, nem mais cega, que ser um homem cego, e cuidar que o não é"

Padre António Vieira 







Ontem saí tarde. Chovia um gelo húmido que se entranhava até aos ossos e a noite pesava como uma samarra molhada e fedegosa. As gentes eram carrancudas e escassas, pontilhando por debaixo de qualquer um tecto que lhes desse cobertura, conferindo um silêncio plangente  às ruas de início de um fim de semana amordaçado pelo frio.

Não demorou o aconchego, o duche quente, a troca de pele, o calor do chá.

O livro destacava-se do tampo escuro e convidava-me a relaxar. Ignorei-o. Não lhe quis dar esperanças vãs. Daqui a pouco teria que fazer rewind e voltar à casa de partida.. não iria recolher os 2000€, sorriu-me a ideia.
Recostei-me. Estreitei os olhos e fiz revisões. Gosto de fazer revisões. Principalmente porque sempre me deram imenso sono.
Dormitei, dormi, repousei, nem sei ... olhei as horas e pulei. Condicionada que estou pelas minhas rotinas, raro é ser necessária ajuda para despertar. Fica ligado o gadget,  à cautela. Hoje não lhe apeteceu. Mesmo em modo de abstração, ganhei-lhe aos pontos.
Café, café, café, depois os resto, o táxi e andando.

A claridade não era muita. A escuridão avançava enrolada em novelos  antracite vindos de este e oeste. Não tarda chocariam.
Enquanto buscava as chaves, pensava quão triste e escura era a realidade, confinada entre negrumes asfixiantes. Pensei na criança. Pensei nas crianças. Que futuro pode haver quando a escuridão se instala ?
Não há luz que anime gente empedernida. Porque são vis, intolerantes, vingativos e arrogantes. Porque são cegos. Porque são tudo e querem ser mais. Porque são nada e querem ser tudo.
Porque não veem nem deixam ver. Porque veem e fingem não ver. Porque compram  ao peso, verdades ambíguas de colecções descontinuadas, em outlets medíocres e em processo de insolvência e as usam como estandarte de algo que já foi um dia e agora volta para nos espavorir.

Abri as portas, tirei as trancas. Se tudo correr bem, talvez  hoje o sol brilhe. Ouvi de cegos que conseguem distinguir a claridade. Consolo ? Não sei. 

Ver a luz é dogma de cegos, não de invisuais... Pode ser...Não acredito muito em milagres, mas tenho fé.











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15 comentários:

  1. Um homen cego é menos cego que você pensa. Para saber que o sol brilha, ele usa outros meios para ver ,ele sente o calor .
    abraço

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  2. Não é preciso acreditar em milagres para ter fé.
    Beijos, boa semana

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    1. Tão verdade, Pedro.
      Beijinho e obrigada.

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  3. entre o sublime e o cotidiano


    abç

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    1. Mais quotidiano que sublime, seguramente.
      Beijinho e obrigada :)

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  4. Ótima postagem gostei muito, ganhou um fã abraços.

    Me segue, que eu sigo de volta!

    http://nintudo.blogspot.com.br/

    https://plus.google.com/+NinTudo/

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    1. Este comentário foi removido pelo autor.

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    2. Muito obrigada, Nim.
      Abraço

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  5. Há tantas formas de ver... Um texto excelente!
    Uma boa semana.
    Beijos.

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    1. O que os olhos vêm pode ser deslumbrante, mas é frequentemente enganador...
      Beijinho minha amiga.

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  6. OLÁ, SOU SEU SEGUIDOR!

    DESEMPENHO SEXUAL ENTRE COMPANHEIRAS E COMPANHEIROS.A COBRA NÃO ESTÁ FUMANDO.
    VEJA A REALIDADE DOS FATOS NO NOSSO BLOG HUMOR EM TEXTOS.
    UM ABRAÇÃO CARIOCA

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  7. Mais do que a mensagem que está contida (e que bem sabes que a entendo no singular e no plural) e muito bem traduzida no texto, prefiro dizer-te do meu sentir enquanto lia: é fantástica a forma como de atos banais fazes enredo de romance, ligando ideias ou pensamentos para chegares ao sumo do texto.
    BJO, Dulce :)

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    1. Obrigada Odete. Adoro quando alguém me entende como tu. Beijinho.

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É aqui que me mandas dar uma curva