sábado, 27 de maio de 2017

Pancadas...










Quem possui a faculdade de ver a beleza, não envelhece.


Franz Kafka

( Considerando que é alguém com uma pancada Muito superior à minha)







Do alto do meu quase sexagenarismo, interpreto  o que se passa ao meu redor talvez com uma percepção diferente da realidade - da realidade que eu entendo - algo discordante do que poderia ter concebido há um par de anos atrás.

O tempos são outros. Eu  nem por isso, ou antes, não queria , mas também mudei, claro. Já não subo à figueira grande ( enorme desafio gravitacional)  para arremessar dissimuladamente laranjas podres a quem passa, mas psiquicamente falando, não amadureci muito mais do que isso.

Em minha casa,  por motivos decorativos , tampouco narcisistas,  não existem mais do que 4 espelhos. De qualquer modo, as nossas rotinas diárias passam por nos avistarmos com a imagem do que mostramos por aí, praticamente todos os dias de manhã.

A que os meus espelhos me mostram não me espanta nem num bom nem num mau sentido. Serei talvez melhor do que a minha forma cosmozoária , mais formada do que a minha forma embrionária, menos atractiva do que a minha forma infantil, muito menos atraente do que a minha forma juvenil, bem mais amadurecida e pesada  do que a forma intermédia, mas não completamente repulsiva, tampouco desagradável.

Já referi que mentalmente, estou muito à frente, certo? Creio que neste caso particular quererá antes dizer muito atrás...

 A pontualidade sempre foi para mim ponto de honra, por isso raramente me atraso e nunca me deixei ficar para trás. Acompanhei as evoluções no seu melhor e também no seu pior e em certos aspectos sou mais entendida, mais culta e mais jovem do que muito jovem que por aí pulula com a mania da tudologia.

Pode esta , chamemos-lhe assim, "frescura de espírito" ser de algum modo atractiva para miúdos que poderiam ser meus netos ?

Não quero dedicar muito tempo a tentar entender a cabeça dos outros, porque tenho a firme convicção que a realidade que eu entendo pode ser diametralmente oposta à que é percepcionada pelo meu vizinho do lado, mas confunde-me que para além dos galões, haja quem veja nesta que vos escreve uma elegante e sexy louva-a-deus devoradora de machos tenrinhos...

Estranha metamorfose, grande esquizofrenia ou indubitavelmente uma enorme pancada...

Diz-se que o povo e sereno... diz-se tanta coisa... Aqui  a sereníssima  tem sido TÃO, mas tão paciente...


( Todas as fotos : MD Roque


terça-feira, 23 de maio de 2017

Castelos de saudade (I)


O tempo não pára, só a saudade é que faz as coisas pararem no tempo.

Mário Quintana







A tia Adelaide que Deus tem em descanso há quase duas décadas , morava com o segundo marido, numa casa antiga . O  Tio Marcelino depois de praticar religiosamente o seu desporto  favorito, dormir duas ou três horas diárias de modo a recuperar energias gastas a fazer laboriosamente o menos possível, acedia de bom grado aos pedidos que a esposa gentilmente lhe ordenava, e bricolava pela casa de modo a que a mesma se assemelhasse cada vez mais àquele antiquário que a Tia Adelaide adorava visitar na Rua de S. Bento.

Um quadrozinho por outro com qualidade, pinturas do Sr. Monteiro do atelier copiando os Mestres, ladeava com molduras com recortes de revistas e pósteres  tauromáquicos onde pontuava o nome da estrela da família o trisavô Manuel dos Touros.

 Caixinhas de música, loiça chinesa , jarras, vasos, potes, um sem número de preciosidades com que o Senhor Doutor , alto dignitário de Portugal em Macau presenteava a Tia Adelaide pelos seus dotes de passajar roupa de tal modo que os infelizes buracos de cigarro se perdiam na magia da agulha e do dedal. A Tia Adelaide não teve filhos, por isso colecionava pequenas peças do Bordalo num aparador envidraçado, que mostrava a quem a visitasse, sem nunca permitir que um "seu menino" deixasse a sua mão. Podiam muito bem ser admirados  de longe.

A casa da Tia Adelaide era alta e castiça, e não fora a falta dos fados e guitarradas, bem poderia ter sido a inspiração de Alberto janes para as célebres tabuinhas. Tinha uma escada estreitinha que levava a um sótão com uma banca de carpinteiro e novelos de aparas de madeira pelo chão, lugar mágico, onde eu buscava e rebuscava, tentando encontrar os macaquinhos que o meu Avô afiançava que a sua irmã mais nova possuía no sótão, sem qualquer sombra de dúvida.

Escusado será dizer que os nunca encontrei.

As janelas, altas como portas, davam para o Jardim do Ultramar, separadas apenas por uma nesga de rua e um muro. Passava horas a atirar pão duro aos patos, a assistir a corridas e lutas pelos pedaços e a imaginar histórias  mirabolantes , enquanto me deliciava com bolachas de agua e sal com colheradas generosas de doce de tomate.

O Tio Marcelino, dez anos mais velho , de 1900, como orgulhosamente apontava, partiu também 10 anos mais cedo. A Tia Adelaide manteve-se ali, rija, enquanto as pernas lhe permitiram. Depois, com grande pesar de deixar o seu cantinho e os seus quadros de natureza viva, que se animavam mal abria as portadas, foi viver com familiares até chegar a sua hora.

Lembraram-me hoje de ir espreitar a casa da Tia Adelaide.


De cara lavada e com plástica bem conseguida, brilha naquele filamento antes parelepípedos escuros, agora clara e alegre calçada,   como uma relíquia que finalmente viu luz.

Não passou sem emoção é verdade, mas acredito que, gaiteira e divertida como ela só, a Tia Adelaide iria achar a casa um palácio.

Para mim foi revisitar o palácio da saudade.






segunda-feira, 15 de maio de 2017

Sonha comigo

"...You are not wrong, who deem
That my days have been a dream;
Yet if hope has flown away
In a night, or in a day,
In a vision, or in none,
Is it therefore the less gone?  
All that we see or seem
Is but a dream within a dream."


Edgar Allen Poe







Porque raio estará o gato a vomitar para dentro das sapatilhas de caminhada ? Se está mal disposto, não é seguramente ali que vai se vai aliviar de brisas frescas...

 Susto! Acordo estremunhada  e sem sombra de felinos nas imediações, mas o grito apavorado ainda ecoa no meu subconsciente que o captou e foi ampliando progressivamente, até tomar proporções gritantes de trombetas apocalípticas... seis e meia da manhã, caramba ! Salto louca da cama, não reparando que o sudário beije se enrolara sensualmente num tornozelo, e zás!  o tapete Arménio subiu que nem um foguete de encontro à minha cara meia dormente de sono.


Não sei quanto tempo demorei a sentar-me e a perceber-me... uns eternos 10 segundos, talvez mais.
Consegui muito a custo sair do quarto esperando a todo o momento dar de caras com um encapuçado negro de segadora na mão...


Abre, solta-me, abre , liberta-me, gritava em plenos pulmões uma figura de mulher farta, desgrenhada, enlouquecida, transfigurada e ao mesmo tempo estranhamente familiar, que encerrava por entre os dedos crispados de um punho cerrado, um cadeado escuro e ferrugento.


Olhou suplicante para mim. Chorava. Abre, liberta-me, falava entrecortada e ofegantemente sem largar a tranqueta pardacenta ... por favor, abre. Olha para mim, disse-lhe, olha. Reconheci imediatamente aquele olhar que conheço desde que nasci, calmo e sonhador, jovial e decidido, mas tão transtornado por um medo, uma ansia que lhe parecia toldar a razão.
 Escuta, dá cá o cadeado, dá-mo! Põe-no aqui na minha mão, vá . Vês ? Não precisas de qualquer chave nem sequer de o abrir para te libertares, mira-o bem e desmerece o facto do que ele possa ter sido. Já não é coisa alguma que te possa atemorizar; quanto muito provoca aversão,   está velho e gasto e só pode prender preconceitos, intolerâncias, incompreensões, fanatismos, facciosismos e inclemências, e tu não és dessas coisas, nunca foste. Se puxares a argola com força e a firme convicção de que és livre , vais ver que rebentas com qualquer réstia que ainda se lhe prenda. Experimenta.
 A vontade e a força partiram a tranqueta pelo gonzo deixando no ar um cheiro acre a vilanagem e  ferrugem. Vi os  humores iluminarem os olhos assustados, a cor voltar ao rosto e afivelar-se aquele meio sorriso que lhe desanuvia o cenho e desenha um arco de calma e  ponderação.

Deixei-me sentada no sofá, tranquila, a tomar uma tisana quente, enquanto afagava o pelo sedoso da gata que ronronava a cada passagem da mão. Sorri. Voltei para o aconchego , deitei-me e adormeci contente.
Sonhei que estava a dormir, deitada num pião gigante que rodava sem parar.


( All fotos by MD Roque)




                     

sexta-feira, 12 de maio de 2017

De volta à vida. De volta ao Blog

Hoje amanheci igual... pensei o que pensei, fiz igual ao que foi feito. Experimentei o  déjà vu e re - postei um escrito.
Três anos e pouco depois, não mudei quase nada nesta imensa mudança que sofri...

"O difícil não é imitar a grandeza com a desmesura. O difícil é que a alma não seja anã."- Vergílio Ferreira



Toda a Sociedade Está dentro de Mim



Fazer qualquer coisa ao contrário do que todos fazem é quase 
tão mau como fazer qualquer coisa porque todos a fazem. Mostra uma igual preocupação com os outros,
 uma igual consulta da opinião deles - característica certa da inferioridade absoluta.
 Abomino por isso a gente  que se preocupa com seres imorais ou infames,
 e com o impingir paradoxos e opiniões delirantes. 
Nenhum homem superior desce até dar à opinião alheia tal importância que se preocupe em contradizê-la.
...


(Fernando Pessoa)









Só se ouviam os meus passos na pedra preta do basalto da viela, sem passeios a contrastar, estreita e claustrofóbica, cortada por entre prédios atarracados e velhos  como se de uma cicatriz se tratasse. Sorri à ideia do caminho para a livraria do portão escuro, enegrecido pelo tempo, onde se guardavam memórias por dentre folhas esquecidas e amarelecidas pelo tempo, necrópole de autores consagrados e de outros não tão conhecidos, mas cuja magia osmótica contagia e se apodera de quem a absorve. Um candeeiro acendeu a sua luz fraca e trémula que anunciava o crepúsculo, arauto da noite. Olhei o número num azulejo escuro e gasto incrustado na parede. Era ali.

Ali, naquela porta verde e baixa, não se guardavam livros. 
Entrei para a sala iluminada por quebra-luzes de vitral, garridos e sujos de pó que espalhavam um caleidoscópio de cores desmaiadas pelos cabides e cruzetas que cobriam  paredes de cor indefinida.
"Vidas em Segunda Mão" - dizia o letreiro sobre a porta, para quem sabia o que procurava; era uma placa ferrugenta, imperceptível e gasta pela erosão das vidas que entravam e saiam, das que ficam e das outras que iam experimentar a mudança.
Entrei e a miúda ao canto junto à registadora, não levantou os olhos do telemóvel onde os polegares batiam ágil e velozmente, nem sequer respondeu  à minha saudação, limitando-se a dizer "Esteja à vontade"... seguramente não estava preocupada que eu lhe roubasse uma vida usada.

Havia-as para todos os gostos. Levei 3 para o provador.

Experimentei a de estrela de cinema. Era tamanho único e estava muito apertada. Apesar de ser maravilhosa, estava esfiapada por dentro e cheia de manchas de vícios mil. Não se podia alargar pelas costuras... já tinha sido escortanhada até ao impossível. Despi-a com pena, deixei-a do avesso com o glamour a assomar por dentre os alinhavos dos remendos... não era para mim.

Experimentei a de político. Assentava-me que nem uma luva, mas convenhamos que aquela espécie de lycra se molda a qualquer corpo com vontade de a envergar. Fedia. O cheiro era tão intenso e nauseabundo que seria necessário um estômago forte e falta de sentidos para a poder vestir. À segunda contracção do bucho, despi-a. Foi como me estivesse a esfolar viva; aquela vida apegara-se-me tão intensamente que a tarefa de a conseguir tirar por completo e mais ao nojo que a assistia me agastou anos à minha própria vida... não era para mim.

Experimentei a de aventureiro e atleta saudável. Esta havia-a em diversos tamanhos porque a vontade de começar é grande e o início auspicioso, mas com o passar do tempo , quase todos a trocam pela vida sedentária, familiar, bem nutrida e  mal regrada ... a única esgotada no escaparate.
Saltos de para-quedas não,  que tenho vertigens e me falta o ar. Mergulhar em apeneia não,  que tenho claustrofobia e me falta o ar. Comer alface não, que sou uma barulhenta pertinaz, mas não sou grilo... e apesar de impregnada com o maravilhoso e inebriante cheiro do ar puro , tive que a despir... não era para mim.

Saí cabisbaixa dos provadores e olhei melhor para as vidas em exposição : as melhores, nem eram de marca, não passavam de tristes imitações baratas, as outras, coitadas, estavam puídas pelos usos e  desusos.
Sorri para comigo e pensei que mudar de vida , afinal  não é assim tão fácil. Nem é tampouco importante. A minha vida não é nova, nem de marca, mas é boa. Só precisa de uns pequenos ajustes aqui e ali e talvez dure ainda mais uns aninhos, ou quem sabe, seja muito mais resistente do que parece e me acompanhe até ao fim.